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2º Domingo da Páscoa

Escrito por   em 24/04/2022

“Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” – Evangelho: João 20,29

 

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella: 2º Domingo da Páscoa | Caminhos do Evangelho

 

A paz que vence o medo

Frei Gustavo Medella

“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: ‘A paz esteja convosco’”. (Jo 20,19).

O medo sempre fecha portas. Do medo derivam a desconfiança, o sobressalto, a intolerância e até a violência. O medo fecha portas e corações. De corações extremamente amedrontados, que se tornam cegos pelo ódio e pelo fanatismo, nascem planos de morte e destruição. A intolerância é tamanha que não se contém em si e se extravasa em bombas mortíferas como aquelas que mataram centenas de cristãos no Sri Lanka em pleno Domingo da Páscoa da Ressurreição.

Apesar de todo medo e das portas fechadas, o Ressuscitado insiste em aparecer e propor o remédio para tantos males que afligem o ser humano: “A paz esteja convosco”. E ela, a paz, não chega explosiva, nem agressiva e não se impõe. Apresenta-se como sopro suave do Mestre apresentando o caminho da resistência pacífica como resposta a toda investida de violência e intolerância.

Celebrar o 2º Domingo da Páscoa, aquele dedicado à Divina Misericórdia, significa renovar a confiança na presença viva do Ressuscitado e no sopro divino com o qual ele deseja inflar os corações de seus discípulos e discípulas. Continuar celebrando a Ressurreição mesmo num cenário de dor e morte é empenhar-se cada vez mais na solidariedade para com aqueles que são vítimas da violência em suas mais variadas e tristes expressões. É perceber que, em cada morte violenta, um pouco da humanidade morre junto e, por isso, trabalhar com vontade e persistência na prevenção de todo e qualquer tipo de violência.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011. 

 

2º Domingo da Páscoa, ano C

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

 Oração: “Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. Fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, o espírito que nos deu nova vida, e o sangue que nos redimiu”.

  1. Primeira leitura: At 5,12-16

Multidões cada vez maiores de homens e mulheres aderiam ao Senhor pela fé.

Lucas escreve seu segundo livro, os Atos dos Apóstolos, nos anos oitenta. Portanto, aos cristãos da segunda geração. No livro dos Atos Lucas mostra como a fé cristã se espalhava pelo no Império Romano pelo testemunho dos apóstolos e discípulos de Jesus. Testemunhas que creram em Jesus porque viram seus milagres, ouviram sua doutrina e experimentaram a força de sua ressurreição (Evangelho). Em três pequenos sumários (At 2,42-47; 4,32-47; 5,12-16), Lucas apresenta a vida da primeira comunidade de Jerusalém como modelo para os cristãos da segunda geração. Em meio aos conflitos e perseguições, o que sustentou e fez crescer a comunidade era a fé em Jesus Cristo, a força do Espírito Santo, as reuniões em comum, o partir do pão, a partilha dos bens na comunidade. Tudo isso era animado pelo “testemunho da ressurreição do Senhor Jesus”, dado pelos apóstolos. O terceiro sumário, que hoje ouvimos, fala-nos do dinamismo evangelizador, fruto da fé em Cristo Ressuscitado, anunciada e vivida pela comunidade modelo de Jerusalém. Jesus de Nazaré já havia enviado os apóstolos e discípulos para proclamar o reino de Deus, com o poder de expulsar os demônios e curar os enfermos (Lc 9,1-6), missão concedida também aos setenta e dois discípulos (Lc 10,1-12). Os apóstolos, tendo recebido o Espírito Santo, fazem os mesmos milagres que Jesus fazia. Exercem o dom de curar, um carisma mencionado por Paulo (1Cor 12,9.28.30). Como as multidões procuravam tocar, ao menos, nas vestes de Jesus para serem curadas, agora o povo traz seus enfermos em macas para que, ao menos, a sombra de Pedro os tocasse. O texto apresenta o roteiro básico para a vida das comunidades cristãs de nossos dias, animadas pelo Espírito Santo. As características das comunidades se baseavam na fé em Cristo morto e ressuscitado, eram marcadas pela perseverança na doutrina, nas reuniões, no partir do pão (eucaristia), na oração, na partilha dos bens, no cuidado para com os pobres e enfermos de alma e corpo.

Salmo responsorial: Sl 117 (118)

Dai graças ao Senhor, porque é bom;

Eterna é a sua misericórdia.

  1. Segunda leitura: Ap 1,9-11a.12-13.17-19

Estive morto, mas agora vivo para sempre.

Quem nos escreve é João, “irmão e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança em Jesus”. É um perseguido como outros cristãos por causa da Palavra de Deus (cf. Jo 1,1) e o testemunho que dava de Jesus. A visão que vai descrever acontece no dia do Senhor, dia em que os cristãos se reúnem para celebrar a Ceia do Senhor. O que ele vê? Vê alguém semelhante a “um filho de homem”, título que Jesus se dava durante a vida pública. Diante da visão, cai por terra como que morto. É, porém, amparado por esse “filho de homem”, que se apresenta como “o Primeiro e o Último” (círio pascal da vigília). É aquele que esteve morto, mas agora vive para sempre. É o Cristo ressuscitado, presente no meio de nós, que nos diz: “Não tenhas medo”, porque venci a morte e nos garante a vida eterna. Ele está presente no meio de nós, quando ouvimos a sua Palavra, participamos de sua ceia e somos sinais da misericórdia divina entre os irmãos.

Aclamação ao Evangelho

Aleluia, Aleluia, Aleluia!

Acreditaste, Tomé, porque me viste.

Felizes os que creram sem ter visto!

  1. Evangelho: Jo 20,19-31

Oito dias depois, Jesus entrou.

No capítulo 20, o evangelista concentra três manifestações do Senhor Jesus resuscitado, acontecidas no primeiro dia da semana. Ele escreve, sessenta anos depois da morte de Jesus, para as comunidades cristãs que não conheceram a Jesus de Nazaré, quando a maioria das testemunhas oculares já havia morrido. Por isso a insistência em colocar as manifestações do Ressuscitado no primeiro dia da semana. Era o dia do Senhor (2ª leitura), isto é, Dies Domini, ou o Domingo. Era nesse primeiro dia que as comunidades cristãs se reuniam para celebrar a memória da Ressurreição do Senhor (At 20,7). Com um olho no passado, o evangelista escreve para o presente das comunidades cristãs. Foi nesse dia que Maria Madalena visitou o túmulo de Jesus, comunicou a Pedro e a João que o túmulo estava vazio e, depois, Jesus lhe apareceu. Foi nesse dia que Pedro viu o túmulo vazio, com as faixas de linho, que envolviam o corpo de Jesus, deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça, enrolado num lugar à parte. Foi nesse dia que João viu a mesma coisa e acreditou na Escritura, segundo a qual era preciso que Jesus ressuscitasse. Foi ao anoitecer do mesmo dia que Jesus se manifestou aos discípulos, reunidos numa sala e lhes disse: “A paz esteja convosco” (3 vezes!). E oito dias depois tornou a se manifestar, desta vez, também ao incrédulo Tomé. No Evangelho de hoje, por duas vezes os discípulos estão reunidos e Jesus aparece no meio deles. Tomé, ausente na primeira aparição, fica incrédulo diante do testemunho dos outros discípulos. Em João, Jesus confia a tarefa de perdoar aos discípulos. A tarefa de perdoar não cabe apenas aos ministros do perdão sacramental. Praticar a misericórdia, buscar a reconciliação com o irmão, perdoar e ser perdoado, é uma tarefa confiada a cada discípulo de Jesus. Por isso Jesus nos faz rezar: “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam”. E o apóstolo Tiago nos pede: “Confessai vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados” (5,16). Cristo Jesus entregou sua vida por nossos pecados e nos concedeu o Espírito Santo para vivermos a misericórdia que ele praticou.

Ao apóstolo Tomé, que se negava a crer na ressurreição do Senhor se antes não tivesse tocado suas chagas com as próprias mãos, Jesus diz: “Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto” (1ª leitura). Sim, felizes somos nós que cremos na ressurreição do Senhor, sem termos convivido com ele, como os primeiros discípulos. Felizes somos nós, quando praticamos a misericórdia com os irmãos sofredores e curamos suas feridas, porque estamos tocando as chagas de Jesus: “Todas as vezes que fizestes isso a um desses meus irmãos menores, a mim o fizestes” (Mt 25,40).


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

 

Uma estrada a fazer

Frei Clarêncio Neotti

A evangelização da Igreja, feita sob o Espírito Santo, deverá recriar a criatura humana e santificá-la. Por isso devemos receber a remissão dos nossos pecados, isto é, retornar à primitiva e perdida intimidade com Deus-Pai. Essa estrada não se faz por meio dos sentidos (essa é a grande lição do Apóstolo Tomé, hoje), mas por meio da fé. Crendo que “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus” (v. 31), teremos “a vida em seu nome”, vida que será a perfeita e eterna comunhão com Deus, comunhão que é a maior expressão da misericórdia divina a nosso respeito.

Vejo em Tomé o símbolo da criatura humana à procura da verdade. Não podemos ser pessoas crédulas. A fé envolve nosso ser inteiro, também a inteligência, a vontade, os sentimentos. A esse conjunto, a Bíblia chama de ‘coração’. Por isso, poderíamos dizer que ‘cremos com todo o coração’. Mas a fé não depende dos sentidos e dos sentimentos. Abrange-os, mas não se reduz a eles. A frase de Jesus: “Feliz quem não vê, mas crê” (v. 29), além de ser orientativa para nós, é de grande consolo. São Paulo dirá aos Coríntios: “Nem o olho viu nem o ouvido ouviu nem jamais penetrou no coração humano o que Deus preparou para os que o amam” (1 Cor 2,9).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

 

Os discípulos se alegraram por verem o Senhor

Frei Almir Guimarães

Cristo vem até nós e não esconde suas feridas, antes as mostra – querendo encorajar-nos assim a que nos dispamos das nossas armaduras, máscaras e maquiagens, e contemplemos as feridas e cicatrizes que escondemos dos outros e de nós mesmos debaixo das camadas de proteção e olhemos também para as feridas que causamos em outros.
Tomás Halík – Toque as feridas – Vozes, p.85

Estamos vivendo as belas alegrias do tempo pascal. Domingo após domingo são facetas novas do Ressuscitado desenhadas diante de nossos olhos. Ele ressuscitou. Voltou para o Pai, mas está no meio de nós, no lusco-fusco ou na claridade da fé. Não cessamos de repetir aleluias e jubilações. Caminhamos por este tempo na companhia do Ressuscitado, sempre no universo da fé. A morte não pronuncia a última palavra. Colossenses sempre nos lembra: “Vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Escondida no Cristo vive. Somos discípulos do Ressuscitado.

As portas da sala em que se encontravam os apóstolos estavam trancadas. Depois da morte do Mestre o pequeno grupo tinha medo, muito medo. Os apóstolos não queriam ser ocasião de caçoada e chacotas de alguns dos chefes religiosos. As portas estavam vedadas, quem sabe, com trancas de ferro. Talvez mais trancados do que as portas estavam os corações daquele pequeno grupo sobre os quais repousava a responsabilidade de anunciar a vitória do Mestre. Mas quanto temor…

“Não tenhas medo. Eu sou o primeiro e o último. Estive morto, mas agora vivo. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos” (Ap 2,17-18).

Jesus chega. Coloca-se no meio deles, como nos tempos passados. Agora atravessa as portas fechadas. Chega desejando a paz. Quer que o coração dos seus busque asilo na certeza de sua presença. Um outro modo de se fazer presente. Mas é ele.

Aquelas mãos, as mãos de Jesus. Ali estão as chagas. Chagas agora brilhosas, luminosas, brilhantes. Antes foram chagas sanguinolentas e sangrentas. Não podem ser separadas umas das outras. Mistério da vida. Morte e vida. Chagas sangrentas e chagas brilhantes que o mais puro dos ouros… mas chagas.

Aquelas mãos de Jesus conservam as marcas dos pregos. Antes elas haviam tocado a madeira na oficina do carpinteiro José, tinham feito lama com a saliva para untar os olhos do cego, mãos que haviam tocado as crianças. Agora elas tinham preciosos rubis. O escarlate do sangue brilhava e os apóstolos experimentam alegria. Assim, Jesus infunde paz no coração dos temerosos e medrosos discípulos.

“Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Ele viera da parte de seu Pai. Voltava para o Pai e enviava os seus para continuarem sua missão. Tinham que abrir portas ou entrar por portas fechadas pelo medo e pela autossuficiência e dizer que acreditavam na vida, na plenitude da vida.

Eles seriam embaixadores do perdão. Nas primeiras páginas da Escritura, Deus soprara sobre o primeiro homem feito de barro e ele se tornou alma vivente. Os apóstolos, constituídos mensageiros do perdão, segundo o texto evangélico hoje proclamado, se tornam embaixadores do perdão, são habitados pelo sopro do Espírito. A missão da Igreja é anunciar o mundo novo da paz, da vida, do perdão dos dilaceramentos, das indiferenças, das crueldades desde que os corações se tornem contritos e arrependidos. O perdão é o grande presente pascal.

Tomé estava ausente. Chegara mais tarde. Queria provas da ressurreição. Queria tocar as chagas. Queria ver. Felizes os que não viram mas creram. Felizes somos nós que tivemos a graça de organizar a nossa vida à luz do Ressuscitado, que nos sentamos à mesa com ele para nos alimentar de seu corpo, que fazemos dele o sentido de nossa vida, ele que mora no amor de um homem e de uma mulher, que deita óleo nas feridas de nossa trajetória e instila esperança em nossas vidas.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

 

Abrir as portas

José Antonio Pagola

O Evangelho de João descreve com traços obscuros a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a Igreja se converte num grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”.

Com as portas fechadas não se pode ouvir o que acontece lá fora. Não é possível captar a ação do Espírito no mundo. Não se abrem espaços de encontro e de diálogo com ninguém. Apaga-se a confiança no ser humano e crescem receios e preconceitos. Uma Igreja sem capacidade de dialogar é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a atualizar o eterno diálogo de Deus com o ser humano.

O “medo” pode paralisar a evangelização e bloquear nossas melhores energias. O medo nos leva a rejeitar e condenar. Com o medo não é possível amar o mundo. Mas, se não o amamos não o olhamos como Deus o olha. E, se não olhamos com os olhos de Deus, como comunicaremos a Boa Notícia?

Se vivermos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar algum leproso excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores ou prostitutas? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião. Os que querem buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.

Nossa primeira tarefa será deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para defender-nos do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas igrejas, grupos e comunidades. Que só ele seja fonte de vida, de alegria e de paz. Que ninguém ocupe o seu lugar, que ninguém se aproprie de sua mensagem. Que ninguém imponha um modo diferente do seu.

Já não temos mais o poder de outros tempos. Sentimos a hostilidade e a rejeição em nosso entorno. Somos frágeis. Mais do que nunca, precisamos abrir-nos ao sopro do Ressuscitado para acolher o seu Espírito Santo.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

 

A Páscoa de cada semana

Pe. Johan Konings

O cristão começa a semana com cara de domingo e não de segunda-feira. Pois, como diz o próprio nome, a segunda-feira é o segundo dia da semana. O primeiro é o domingo, por diversas razões.

Na liturgia do 2° domingo pascal, o autor do Apocalipse faz questão de dizer que ele teve a sua visão no “primeiro dia da semana”, no domingo (2ª leitura). É o dia da ressurreição: o que ele vê, na sua visão, é “o morto que está vivo”, Cristo ressuscitado. É o dia da celebração: ele vê uma liturgia celeste em honra de Jesus, o Cordeiro pascal imolado por nós.

Também o evangelho de hoje nos fala, por duas vezes, do primeiro dia da semana. A primeira cena deste evangelho situa-se no próprio dia da Páscoa, quando Jesus aparece aos discípulos, mostrando-se ressuscitado e vivo, para derramar sobre eles o Espírito Santo, que lhes dá o poder de tirar o pecado do mundo, como ele mesmo tinha feito. A segunda cena ocorre “oito dias depois” (portanto, outra vez no primeiro dia da semana), quando Jesus aparece para se mostrar a Tomé e confirmar a sua fé.

O primeiro dia da semana é o dia de Jesus e de Deus, domingo, dies Domini, dia do Senhor. Lembra o primeiro dia da criação, quando Deus criou a luz. A ressurreição de Jesus é novo primeiro dia da criação, nova luz que surge sobre o mundo. E cada domingo é, para o cristão, a comemoração dessa luz pascal e dessa nova criação. Nós mesmos somos criaturas novas, chamadas à vida na luz – a luz de Cristo morto e ressuscitado.

O domingo é páscoa semanal, dia da comunidade, lembrete da nova criação que nós somos em Cristo. Não só pessoalmente, mas como comunidade, chamada a dar um novo tom ao mundo. Os habitantes de Jerusalém perceberam essa novidade. Muitos aderiram à comunidade e todo o povo a elogiava, diz a 1ª leitura de hoje. Também hoje, o mundo deve perceber essa novidade no novo rumo que os cristãos imprimem à história, transformando-a de história de opressão em história de libertação. O domingo, com seu descanso físico, sua alegria espiritual e sua comunhão na celebração, deve alimentar em nós esta existência pascal nova e formadora.

Israel celebra o dia santo no sábado, dia do descanso de Deus depois de completada a criação. É um símbolo religioso muito profundo. O próprio Jesus observava normalmente o sábado, tomando, porém, a liberdade de fazer curas ou permitir colher espigas, porque a que Deus criou deve também ser conservada no dia de sábado… Os cristãos escolheram como dia santo o dia depois do sábado, o dia da Ressurreição, da restauração da vida, pensando não tanto na criação acabada, mas na novidade de vida inaugurada por Jesus. Por isso, os Pais da Igreja chamaram este dia de “oitavo dia”: ele está fora da sequência dos sete dias da semana, é de outro nível. Simboliza o tempo novo e definitivo. Será que isso se reconhece na maneira em que celebramos o domingo?


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Todas as reflexões foram tiradas do site www.franciscanos.org.br 


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